Uma mulher livre

http://www.candacedwan.com/Simone de Beauvoir (1908-1986) teria completado ontem 100 anos. Em França, a data foi assinalada com um Colóquio Internacional organizado pela psicanalista Julia Kristeva, com a edição de vários documentários e livros.

Nascida numa família burguesa de Paris, Beauvoir cresceu revoltada com a mediocridade dos valores defendidos pelo seu meio social. Licenciou-se em Filosofia na Faculdade de Letras de Paris, tendo sido, aos 21 anos, a mais nova professora da época.

Simone foi companheira de Jean-Paul Sartre ao longo de 51 anos, embora nunca se tenham casado. Mantiveram uma relação aberta, tanto Simone como Sartre tiveram aventuras e romances mas conservaram a relação entre ambos. Helena Vasconcelos, no site Storm, diz que “uns defendem que Sartre é que foi o verdadeiro filósofo e intelectual e que Simone se limitou a seguir-lhe os passos; outros, pelo contrário, acham que ela é que foi a força motriz para as bases do pensamento existencialista. Ambas as leituras são redutoras e induzem em erro. Sartre e Beauvoir passaram anos e anos a trocar ideias, a estudar detalhadamente a obra um do outro e a influenciar-se mutuamente. Os acidentes e incidentes que lhes povoaram a vida foram objecto de discussão e análise em comum. Constituíram um desses casais extraordinários que se podem contar pelos dedos, na história da humanidade.”

Foi em 1949, ao publicar O Segundo Sexo (Le Deuxième Sexe), verdadeira Bíblia do feminismo, que Simone de Beauvoir se tornou conhecida no mundo intelectual francês, com a célebre frase: “Não nascemos mulheres, tornamo-nos mulheres.” O livro analisa a situação feminina do ponto de vista biológico, sociológico e psicanalítico, as razões históricas e os mitos que fizeram da mulher um “segundo sexo”.

Na edição de ontem do Público, Ana Luísa Amaral dizia que “O Segundo Sexo antecipa, de forma admirável, o feminismo da chamada “segunda vaga”, que surgiria quase três décadas depois, com o movimento de libertação das mulheres a desenvolver-se, no final dos anos 60, a par de outros movimentos sociais de contestação, de carácter transnacional – as lutas pelos direitos cívicos, os movimentos estudantis, as preocupações ecossistémicas, a reivindicação, por parte das minorias, de uma voz e de um lugar que fosse seu.”

Em 1976, numa entrevista, Beauvoir acreditava que as mudanças pelas quais lutara não se realizariam durante a sua vida: “Talvez daqui a quatro gerações.”

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